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Lira XVII – Parte I – Marília de Dirceu

Minha Marília,

Tu enfadada?

Que mão ousada

Perturbar pode

A paz sagrada

Do peito teu?

Porém que muito

Que irado esteja

O teu semblante:

Também troveja

O claro céu.

Eu sei, Marília,

Que outra pastora

A toda hora,

Em toda a parte,

Cega namora

Ao teu pastor.

Há sempre fumo

Aonde há fogo:

Assim, Marília,

Há zelos, logo

Que existe amor.

Olha, Marília,

Na fonte pura

A tua alvura,

A tua boca

E a compostura

Das mais feições.

Quem tem teu rosto

Ah! não receia

Que terno amante

Solte a cadeia,

Quebre os grilhões.

Não anda Laura

Nestas campinas

Sem as boninas

No seu cabelo,

Sem peles finas

No seu jubão.

Porém que importa?

O rico asseio

Não dá, Marília,

Ao rosto feio

A perfeição.

Quando apareces

Na madrugada,

Mal embrulhada

Na larga roupa,

E desgrenhada,

Sem fita ou flor,

Ah! que então brilha

A natureza!

Então se mostra

Tua beleza

Inda maior.

O céu formoso,

Quando alumia

O sol de dia,

Ou estrelado

Na noite fria,

Parece bem.

Também tem graça

Quando amanhece;

Até, Marília,

Quando anoitece

Também a tem.

Que tens, Marília,

Que ela suspire,

Que ela delire,

Que corra os vales,

Que os montes gire,

Louca de amor?

Ela é que sente

Esta desdita;

E na repulsa

Mais se acredita66

O teu pastor.

Quando há, Marília,

Alguma festa

Lá na floresta,

(Fala a verdade!)

dança com esta

o bom Dirceu?

E se ela o busca,

Vendo buscar-se,

Não se levanta,

Não vai sentar-se

Ao lado teu?

Quando um por outro

Na rua passa,

Se ela diz graça,

Ou muda o gesto,

Esta negaça

Faz-lhe impressão?

Se está fronteira,

E brandamente

Lhe fita os olhos,

Não põe prudente

Os seus no chão?

Deixa o ciúme,

Que te desvela:

Marília bela,

Nunca receies

Dano daquela

Que igual não for.

Que mais desejas?

Tens lindo aspecto;

Dirceu se alenta

De puro afeto,

E pundonor.


Estuda da Lira:

• No início da lira Dirceu diz que Marília foi perturbada por alguém e ele está com raiva, e a própria Marília também está.

• Depois Dirceu diz que em todos os lugares existem pessoas namorando e assim como onde tem fumo há o fogo, onde há o amor, tem também cuidados. E é por esse motivo que ele cuida tanto de Marília, se preocupando com alguém que possa querê-la.

• Com a beleza, pureza de Marília não há um homem que não irá querê-la. Qualquer um romperia cadeias e tudo o que impedissem para ter Marília.

• Mesmo se embelezando, se cuidando, fazendo tudo para ficar bonita, nenhuma mulher com dinheiro irá conseguir ter um rosto tão bonito como o de Marília – nesta parte ele faz referência a Laura, uma moça rica que usava boninas nos cabelos que mesmo com todo o dinheiro não se comparava a amada de Dirceu.

• Marília pode estar desarrumada, toda desgrenhada, mas para Dirceu é nesses momentos que ela fica ainda mais bonita.

• Ela está sempre cheia de graça, de beleza, seja no amanhecer ou na noite estrelada.

• Em uma festa quando uma mulher quer dançar com Dirceu e o busca para que levante, ele vai. Quando passa na rua uma mulher e o olha ou faz graça, ele faz o mesmo. Mas ele faz tudo isso por cavalheirismo e não fará nada com que não for igual a Marília, e ela não deve ter ciúmes dele por causa disso.